Neste Natal resolvi inovar. Ou melhor, relembrar as origens. Há muito tempo estava querendo fazer a iguaria que sempre esteve presente nas ceias dos natais da familia: as cuquinhas de mel. Elas tradicionalmente fizeram parte do cardápio natalino, passando de geração a geração. Trata-se de umas bolachas bem macias, cobertas com glacê e com confeitos coloridos, muito consumidas no Sul do País.
Passei minha infância sentindo o cheiro dessas delícias, enquanto eram assadas no formo, exalando o aroma de cravo, canela e mel. E quando ficavam prontas, corria para saboreá-las, deixando cada pedacinho dissolver-se lentamente na boca. Mesmo depois de adulta continuei esperando ansiosamente os Natais com seu sabor de cuca de mel. Costume que meu marido e meus filhos também aprenderam a apreciar quando visitávamos a casa de meus pais.
Mas como preservar a tradição? Até agora só havia me preocupado em saborear essas delícias, sem nunca ter observado minha mãe prepará-las para conhecer seus segredos que fizeram a tradição. Ao refletir sobre o significado que as cuquinhas tinham na vida familiar, também pensei no carinho, amor e dedicação de minha mãe em ir, às vésperas do Natal, para cozinha, doar-se, através do calor do fogão e em meio a outras obrigações. Natal é isso: doação, carinho, participação, onde cada um dá um pouco de si mesmo para que a festa aconteça.
Deixei escapar esse momento de doação, pois nunca estive na cozinha para observá-la a fazer seus afazeres culinários com afinco. Hoje renovo seu amor e lamento não ter recebido dela, diretamente, as ferramentas necessárias para que a mesa continuasse a ter as cuquinhas com sabor de Natal.
Para reviver tudo isso, o jeito foi recorrer à minha sobrinha Raquel, a única da família que se preocupou em aprender a sua arte e, assim, poder anotar a receita.
Prontamente, ela enviou-me a receita por e-mail, escrita ainda com a letra de minha mãe. Emocionada, fiz a lista de ingredientes e corri ao supermercado para comprá-los, acreditando nas dificuldades de encontrá-los. Mas retornei para casa com todos os ítens na sacola.
Ao chegar em casa, arregacei as mangas e coloquei a mão na massa.
Misturei todos os ingredientes com cuidado, procurando adicionar um a um, segundo as quantidades indicadas por minha mãe. "Será que vai dar certo?", perguntava-me, meio insegura. Deixei a massa descansar até o dia seguinte, conforme o recomendado, enquanto minha ansiedade só aumentava.
De manhã cedo, acrescentei o restante da farinha, formei as cuquinhas e fiz o glacê. Ah, o glacê. Não conseguia dar o ponto. Coloquei mais açúcar... mexi... mais açúcar. Acho que deu. Forno quente por dez minutos. Ficou pronto. O cheiro de minha infância tomou conta da cozinha. Retirei as formas do forno e, surpresa, o glacê estava todo escorrido. A decepção tomou conta de mim.
Chamei meu marido para provar."O sabor e a textura estão iguais", disse-me ele, tentando consolar-me. Não fiquei muito convencida, mas guardei tudo em vidros fechados para comermos às vésperas de Natal, em família, como é o costume.
No momento em que escrevo este texto, parei por um instante e fui até a cozinha. Minha surpresa ao constatar que um dos vidros, contendo as cuquinhas, já estava pela metade. Bom sinal!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Muitas bênçãos neste Natal
Que este Natal seja pleno de luz e bênçãos para toda a humanidade. Que cessem as guerras., os rancores, as mágoas e os aborrecimentos. Que se fortaleçam em nós o amor e o perdão; o sorriso e o aperto de mão. Deixemos que a luz do Cristo ilumine e guie nossos passos nesta maravilhosa caminhada do existir.
Este quadro pintei inspirada em uma figura que vi na internet e que me emocionou pela clareza da sua mensagem.
Este quadro pintei inspirada em uma figura que vi na internet e que me emocionou pela clareza da sua mensagem.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Vitória, meu lugar...
Vitória, Cidade Sol, Cidade Presépio, Ilha do Mel...
Vitória...meu lugar...
A partir desta data, a cidade de Vitória, Espírito Santo, passa a contar com mais um local de recreação e de práticas esportivas: o Centro Esportivo Tancredo de Almeida Neves, uma extensa área, localizada na parte sul da Ilha, junto ao Terminal Rodoviário e de um parque com extensas áreas livres para o lazer.
Como parte das comemorações de abertura foi inaugurada uma exposição de pintura e de artesanato, da qual participam Centros de Convivências da Terceira Idade da Capital, tendo como tema Vitória, o meu lugar.
Os quadros de minha turma de pintura foram concluídos em tempo de atendermos o calendário original, mas as obras atrasaram por diversas vezes, aumentando nossas expectativas. Era um tal de embala e desembala os quadros, leva para casa, traz de volta, guarda tudo novamente. Mal acreditamos quando foi definitivamente oficializada a data para a entrega do local à população e, consequentemente, a inauguração de um espaço de artes naquelas instalações.
Comparecer à abertura da Exposição foi a concretização de uma bem alimentada aspiração. A seguir mostro algumas telas que minha turma preparou, sob a coordenação de nossa instrutora, a artista plástica Ana Néri, para esse evento. Espero que você, que me lê, goste do resultado.
Comparecer à abertura da Exposição foi a concretização de uma bem alimentada aspiração. A seguir mostro algumas telas que minha turma preparou, sob a coordenação de nossa instrutora, a artista plástica Ana Néri, para esse evento. Espero que você, que me lê, goste do resultado.
Cocos em Camburi - Zuleica Passos
Irene Martins
Paneleiras - Eliane Maria
Ana Heléa Baião
Baía de Vitória - Oscar Lopes Loureiro
Praia do Canto - Zuleica Passos Gomes Pescadores na Ilha das Caieras - Tereza Tozzi Arçari
Artes no Parque
Conhecido popularmente como Tancredão, o Parque Tancredo de Almeida Neves conta agora com um moderno Centro Esportivo. Os atos de inauguração das novas instalações atraíram um bom público, oriundo dos bairros adjacentes, em sua maioria.
A programação de inauguração incluía apresentação de grupos de capoeira, ginástica rítmica, jogos de futebol, entre eles a competição de futebol de areia, entre as seleções do Espírito Santo e do Uruguai, além de shows programados para o dia todo.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Gosto pela leitura
“... não é o leitor que descobre o seu poeta, mas o
poeta que descobre o seu leitor.” Mário Quintana
Desde
pequena sempre gostei de livros. Vivi em uma casa onde se respirava livros. Meu
pai era um leitor contumaz e, minha mãe, professora, sempre buscava nos livros
idéias para suas aulas. Então, não foi difícil seguir a tradição. Por isso, quando
meus filhos eram pequenos, meu marido e eu sempre procuramos levá-los a ingressar
no mundo da leitura, seja comprando-lhes livros de acordo com seu desenvolvimento,
seja contando-lhes histórias e estórias. Enfim, plantamos as sementes, cultivá-las é
com eles.
Os
livros são um verdadeiro fascínio para mim. Gosto de estar na presença
de um deles, mesmo que seja para folheá-lo simplesmente ou para sentir o cheiro
de papel misturado com a tinta. Sempre quis desvendar seus segredos. Ao lê-los
viajei por mundos antes desconhecidos e penetrei no âmago de inúmeros
personagens que realmente viveram ou que apenas foram frutos da imaginação dos
autores.
Atualmente,
gosto de vasculhar pela internet, procurar novidades e inteirar-me dos fatos
que acontecem pelo mundo. Porém, apesar de todas as novidades tecnológicas, ainda
cultivo o hábito de sentir entre os dedos a textura do papel. E também é por
isso que aprecio ler o jornal diariamente enquanto tomo o café da manhã ou
depois do almoço, recostada nas almofadas. Esse hábito, diga-se de passagem,
adquiri depois que comecei a fazer parte da empresa “estão de bem com a vida”,
os aposentados.
Não
acho graça em ler um livro, por exemplo, no formato digital. Falta a intimidade. Parar
entre um parágrafo e outro, refletir sobre o que está ali diante dos olhos. Virar as páginas com lentidão ou rapidamente
para desvendar as surpresas que as páginas seguintes reservam.
Como é prazeroso saborear, linha por linha, para fazer render o máximo possível e desfrutar do final que o autor nos apresenta , quer estejamos de acordo ou não.
Como é prazeroso saborear, linha por linha, para fazer render o máximo possível e desfrutar do final que o autor nos apresenta , quer estejamos de acordo ou não.
Gosto
de livrarias. Não vou a um shopping sem dar uma passadinha em uma delas. Delicio-me
em percorrer as prateleiras, demorando-me nas sessões, para repassar títulos,
resumos, ilustrações e fotos. Olho tudo. Desde os lançamentos infantis até os
de meus autores preferidos.
Dizem os estudiosos que ler é acima de tudo compreender. Nada de
leitura dinâmica. Não basta simplesmente passar os olhos. Devemos estabelecer
empatias com os conteúdos, que eles retratam, onde o nosso papel de leitor é levar para dentro dele toda a nossa vivência pessoal,
emoções, expectativas, crenças. É assim que conseguimos ser tocados pela
leitura. Como disse Paulo Freire, é preciso que a leitura seja um ato de amor.
.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Vida & Morte
“... pois, o que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol?”
Neste dia de Finados veio-me à mente essa frase de Gibran Kalil Gibran. Posso imaginar a liberdade que sente aquele que se desprende da matéria e integra-se plenamente ao Todo. Para mim a morte é isso. É o encontro com o infinito.
Não pretendo aqui escrever sobre coisas tristes e nem chorar por aqueles que se foram. Pelo contrário, vou festejar a vida. Vou festejar a vida daqueles que já partiram e nos deixaram lembranças e exemplos que guardamos no coração.
Prefiro seguir na contramão dos costumes do Ocidente e caminhar para um sentido mais abrangente, assim como os orientais, que acreditam ser a morte algo natural. Pois, como diz Gibran, a vida e a morte são uma e mesma coisa. Assim como o rio e o mar são uma e a mesma coisa.
Minhas lembranças de infância guardam este contraste. Naqueles tempos, não se podia ouvir música, pois o dois de novembro era um dia reservado ao recolhimento. As rádios tocavam somente músicas sacras ou clássicas. Ficava no ar uma tristeza inexplicável. Nós, crianças, não podíamos fazer gritarias nas brincadeiras. Tudo isso em respeito aos mortos. O dia parecia mais pesado. Até hoje nunca entendi aquilo direito.
Mas hoje tudo mudou e este dia, para muitos, passou a ser só mais um, mas um especial por ser feriado, onde se pode aproveitar a praia, beber uma cerveja com os amigos ou ficar em uma roda de samba curtindo a batucada. Para outros viver esse dia é seguir a tradição, e chorar os seus falecidos ou esperar a sua vez. É dia de levar flores ao cemitério ou mandar rezar uma missa.
Nem uma coisa nem outra.
Afinal, morremos e nascemos a cada dia. E assim vamos percorrendo ciclos, superando etapas, constituindo e desfazendo relacionamentos, alimentando sonhos e confrontando realidades, revendo atitudes, aperfeiçoando maneiras de operar no mundo, sempre em busca de superarmos nossos limites. Ciclos e etapas.
A vida pode ser comparada a um contínuo desfilar de mortes. Começa pela partida do bebê deixando o aconchego do útero materno para enfrentar a realidade da existência física. A infância deve morrer e dar lugar à adolescência. A juventude, embora com esforço para mantê-la com exercícios, medicamentos, cosméticos ou cirurgias, um dia terá de morrer dando lugar à maturidade da meia idade. E, em seu prolongamento, o grand finale indicando que é hora de voltar para onde viemos. Para onde? Entre o mito e a realidade, haveremos de fixar os momentos infinitos sempre no presente, para, enquanto estivermos aqui, termos consciência da totalidade.
E, parafraseando Gibran, podemos dizer que, se quisermos conhecer o segredo da morte, só podemos descobri-lo se o procurarmos no coração da vida.
Neste dia de Finados veio-me à mente essa frase de Gibran Kalil Gibran. Posso imaginar a liberdade que sente aquele que se desprende da matéria e integra-se plenamente ao Todo. Para mim a morte é isso. É o encontro com o infinito.
Não pretendo aqui escrever sobre coisas tristes e nem chorar por aqueles que se foram. Pelo contrário, vou festejar a vida. Vou festejar a vida daqueles que já partiram e nos deixaram lembranças e exemplos que guardamos no coração.
Prefiro seguir na contramão dos costumes do Ocidente e caminhar para um sentido mais abrangente, assim como os orientais, que acreditam ser a morte algo natural. Pois, como diz Gibran, a vida e a morte são uma e mesma coisa. Assim como o rio e o mar são uma e a mesma coisa.
Minhas lembranças de infância guardam este contraste. Naqueles tempos, não se podia ouvir música, pois o dois de novembro era um dia reservado ao recolhimento. As rádios tocavam somente músicas sacras ou clássicas. Ficava no ar uma tristeza inexplicável. Nós, crianças, não podíamos fazer gritarias nas brincadeiras. Tudo isso em respeito aos mortos. O dia parecia mais pesado. Até hoje nunca entendi aquilo direito.
Mas hoje tudo mudou e este dia, para muitos, passou a ser só mais um, mas um especial por ser feriado, onde se pode aproveitar a praia, beber uma cerveja com os amigos ou ficar em uma roda de samba curtindo a batucada. Para outros viver esse dia é seguir a tradição, e chorar os seus falecidos ou esperar a sua vez. É dia de levar flores ao cemitério ou mandar rezar uma missa.
Nem uma coisa nem outra.
Afinal, morremos e nascemos a cada dia. E assim vamos percorrendo ciclos, superando etapas, constituindo e desfazendo relacionamentos, alimentando sonhos e confrontando realidades, revendo atitudes, aperfeiçoando maneiras de operar no mundo, sempre em busca de superarmos nossos limites. Ciclos e etapas.
A vida pode ser comparada a um contínuo desfilar de mortes. Começa pela partida do bebê deixando o aconchego do útero materno para enfrentar a realidade da existência física. A infância deve morrer e dar lugar à adolescência. A juventude, embora com esforço para mantê-la com exercícios, medicamentos, cosméticos ou cirurgias, um dia terá de morrer dando lugar à maturidade da meia idade. E, em seu prolongamento, o grand finale indicando que é hora de voltar para onde viemos. Para onde? Entre o mito e a realidade, haveremos de fixar os momentos infinitos sempre no presente, para, enquanto estivermos aqui, termos consciência da totalidade.
E, parafraseando Gibran, podemos dizer que, se quisermos conhecer o segredo da morte, só podemos descobri-lo se o procurarmos no coração da vida.
sábado, 8 de outubro de 2011
Coqueiro Verde
“Em frente ao coqueiro verde, esperei uma eternidade...”
Maiô verde, touca enfeitada com apliques de folhas, na cor verde limão,um óculos que encobria boa parte do rosto, no formato arredondado, em tons de verde e, para compor, um tamanco com salto anabela, altíssimo e... da cor verde. Sacola verde para carregar os apetrechos de praia. Era, assim, toda paramentada, que ela caminhava, devagar e sorridente, em direção ao mar carioca.
Em minha adolescência, minha irmã e eu, quando a avistávamos chegando próximo aos banhistas, íamos logo dizendo, entre risos: “Lá vem o coqueiro verde!”.
E essa é a imagem que permanece, até hoje, gravada em minha mente e que me vêm à lembrança todas as vezes que escuto a música “Coqueiro Verde”, de Erasmo Carlos. A cor verde representa a natureza, nos convida a nos conectarmos com os demais. E porque não associa-la àquele peculiar modo de ir à praia, nada discreto ou despercebido, escolhido por minha tia.
Minha tia afirmava que escolhera esta cor como preferida para combinar com o verde dos seus olhos. Depois, na meia idade, chamava atenção, por onde passava, por ser considerada, digamos, um tanto extravagante na maneira de se vestir. Ela sempre seguia o seu caminho de forma altiva, por se achar linda. Não se importava com a opinião alheia, quer fosse essa favorável ou jocosa.
O dinheiro que recebia de uma pensão, deixada por seu irmão militar, falecido aos 22 anos, era bem economizado e guardado, lhe possibilitando, de vez em quando, passar uma temporada no Rio de Janeiro, cidade que ela amava, principalmente por dividir o seu tempo entre a praia e as ruas de Copacabana.
Às vezes, eu e minha irmã, em nossas férias, íamos com ela. Ríamos muito durante a viagem de ônibus de vinte e tantas horas de Porto Alegre ao Rio. Ela levava galinha com farofa e, nós, adolescentes, morríamos de vergonha de comer no ônibus. Mas quando a fome batia, esquecíamos as inibições e caíamos na comilança e na gargalhada.
Pele clara, grandes olhos arredondados, era tremendamente vaidosa. Os de sua geração sempre enalteceram a sua beleza e contavam que, quando ela passava pelas ruas nunca deixava de atrair a atenção dos transeuntes.
Quando jovem, teve uma desilusão muito forte com um namorado do qual era muito apaixonada e nunca mais quis saber de relacionamentos amorosos. Optou por não casar. Sempre morou com os irmãos e sobrinhos. “Conhecimento eu tenho, o que me falta é prática”, dizia sorridente.
Mas nem sempre as relações eram amistosas, porque, ao receber de sua mãe, minha avó, muito mimo, exibia, em conseqüência, uma certa soberba e tornava-se, às vezes, meio inconveniente. Isso causava atritos.
Gostava muito de cozinhar. Preparava saborosos pratos e, sempre, ao colocá-los à mesa, dizia como uma sentença habitual ou rotineira: “A mamãe me ensinou”. Sua especialidade era a salada de maionese, preparada aos domingos para acompanhar o tradicional churrasco. Para adornar, salpicava o prato com salsinha picada, para dar um toque ...verde.
Sempre foi alegre e conversadeira, falava bem alto. Os mais velhos também contavam que, quando jovem, ela cantava no coral da igreja. No casamento de meus pais, cantou a Ave Maria, enaltecida por sua bela voz, conforme relataram os presentes.
Tinha uma saúde de ferro, apesar de fumar muito. Nunca consultava médicos. Dizia que se fosse ao médico, ele iria inventar alguma doença. Tratava gripe, dor de garganta, febre, verruga, calo, dor de cabeça e o que mais aparecesse, com Melhoral e Vickvaporub.
Uma vez, já com uma certa idade, quando estava indo à padaria, foi assaltada na rua perto de casa. O ladrão jogou-a no chão, mas não conseguiu roubar sua corrente e o medalhão de ouro que trazia no pescoço. Ela segurara com firmeza a jóia nas mãos e gritara tanto que o larápio saiu correndo.
Aos noventa anos caiu ao levantar da cama e fraturou o fêmur. Acredito que a osteoporose estava tomando conta. Depois disso, nunca mais se recuperou, foi enfraquecendo até falecer, em 1998, aos 92 anos.
Essa controvertida figura humana deixou, entre nós, incontáveis histórias que fatalmente poderiam alimentar inúmeras crônicas. Mas, para aqueles que, como eu, presenciaram os inusitados banhos de mar, o que fica é a certeza de que a moda, assim como a política, a religião, a estética ou o futebol, não consegue fazer todos rezarem pela mesma cartilha. Sempre haverá alguém que seguirá por caminhos alternativos, como no caso de minha tia, que criou o seu próprio estilo, que lembra um coqueiro verde, ou melhor, fazer a sua opção pelo tom verde limão, para afrontar o branco das areias ou o azul da cor do mar de Copacabana.
Maiô verde, touca enfeitada com apliques de folhas, na cor verde limão,um óculos que encobria boa parte do rosto, no formato arredondado, em tons de verde e, para compor, um tamanco com salto anabela, altíssimo e... da cor verde. Sacola verde para carregar os apetrechos de praia. Era, assim, toda paramentada, que ela caminhava, devagar e sorridente, em direção ao mar carioca.
Em minha adolescência, minha irmã e eu, quando a avistávamos chegando próximo aos banhistas, íamos logo dizendo, entre risos: “Lá vem o coqueiro verde!”.
E essa é a imagem que permanece, até hoje, gravada em minha mente e que me vêm à lembrança todas as vezes que escuto a música “Coqueiro Verde”, de Erasmo Carlos. A cor verde representa a natureza, nos convida a nos conectarmos com os demais. E porque não associa-la àquele peculiar modo de ir à praia, nada discreto ou despercebido, escolhido por minha tia.
Minha tia afirmava que escolhera esta cor como preferida para combinar com o verde dos seus olhos. Depois, na meia idade, chamava atenção, por onde passava, por ser considerada, digamos, um tanto extravagante na maneira de se vestir. Ela sempre seguia o seu caminho de forma altiva, por se achar linda. Não se importava com a opinião alheia, quer fosse essa favorável ou jocosa.
O dinheiro que recebia de uma pensão, deixada por seu irmão militar, falecido aos 22 anos, era bem economizado e guardado, lhe possibilitando, de vez em quando, passar uma temporada no Rio de Janeiro, cidade que ela amava, principalmente por dividir o seu tempo entre a praia e as ruas de Copacabana.
Às vezes, eu e minha irmã, em nossas férias, íamos com ela. Ríamos muito durante a viagem de ônibus de vinte e tantas horas de Porto Alegre ao Rio. Ela levava galinha com farofa e, nós, adolescentes, morríamos de vergonha de comer no ônibus. Mas quando a fome batia, esquecíamos as inibições e caíamos na comilança e na gargalhada.
Pele clara, grandes olhos arredondados, era tremendamente vaidosa. Os de sua geração sempre enalteceram a sua beleza e contavam que, quando ela passava pelas ruas nunca deixava de atrair a atenção dos transeuntes.
Quando jovem, teve uma desilusão muito forte com um namorado do qual era muito apaixonada e nunca mais quis saber de relacionamentos amorosos. Optou por não casar. Sempre morou com os irmãos e sobrinhos. “Conhecimento eu tenho, o que me falta é prática”, dizia sorridente.
Mas nem sempre as relações eram amistosas, porque, ao receber de sua mãe, minha avó, muito mimo, exibia, em conseqüência, uma certa soberba e tornava-se, às vezes, meio inconveniente. Isso causava atritos.
Gostava muito de cozinhar. Preparava saborosos pratos e, sempre, ao colocá-los à mesa, dizia como uma sentença habitual ou rotineira: “A mamãe me ensinou”. Sua especialidade era a salada de maionese, preparada aos domingos para acompanhar o tradicional churrasco. Para adornar, salpicava o prato com salsinha picada, para dar um toque ...verde.
Sempre foi alegre e conversadeira, falava bem alto. Os mais velhos também contavam que, quando jovem, ela cantava no coral da igreja. No casamento de meus pais, cantou a Ave Maria, enaltecida por sua bela voz, conforme relataram os presentes.
Tinha uma saúde de ferro, apesar de fumar muito. Nunca consultava médicos. Dizia que se fosse ao médico, ele iria inventar alguma doença. Tratava gripe, dor de garganta, febre, verruga, calo, dor de cabeça e o que mais aparecesse, com Melhoral e Vickvaporub.
Uma vez, já com uma certa idade, quando estava indo à padaria, foi assaltada na rua perto de casa. O ladrão jogou-a no chão, mas não conseguiu roubar sua corrente e o medalhão de ouro que trazia no pescoço. Ela segurara com firmeza a jóia nas mãos e gritara tanto que o larápio saiu correndo.
Aos noventa anos caiu ao levantar da cama e fraturou o fêmur. Acredito que a osteoporose estava tomando conta. Depois disso, nunca mais se recuperou, foi enfraquecendo até falecer, em 1998, aos 92 anos.
Essa controvertida figura humana deixou, entre nós, incontáveis histórias que fatalmente poderiam alimentar inúmeras crônicas. Mas, para aqueles que, como eu, presenciaram os inusitados banhos de mar, o que fica é a certeza de que a moda, assim como a política, a religião, a estética ou o futebol, não consegue fazer todos rezarem pela mesma cartilha. Sempre haverá alguém que seguirá por caminhos alternativos, como no caso de minha tia, que criou o seu próprio estilo, que lembra um coqueiro verde, ou melhor, fazer a sua opção pelo tom verde limão, para afrontar o branco das areias ou o azul da cor do mar de Copacabana.
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