sábado, 13 de novembro de 2010

Colar de Pérolas


“Com as lágrimas da minha tristeza eu enfiarei um colar de pérolas

para o teu colo, minha mãe. As estrelas forjaram argolões de luz

para enfeitar os teus pés, mas a minha há de ficar sobre o teu seio.

Riqueza e fama vêem de ti e a ti compete dá-las ou recusá-las.

Mas esta minha tristeza é toda absolutamente minha e,

quando eu a levo, em oferenda a ti,

tu me retribues com a tua graça”.

Ao procurar um nome para este blog, fui inspirada pelo texto do poeta indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), não só por sua beleza e por sua sensibilidade, no uso de suas palavras, mas pelas imagens que me vieram à mente quando o li.

Já há algum tempo queria escrever sobre pessoas e acontecimentos que marcaram a minha caminhada e que, de uma maneira ou de outra, contribuíram para ser quem sou. Assim, pensei em registrar, aos poucos, as experiências vividas, como forma de fazê-las compartilhar com todos aqueles que visitam este espaço.

Uma a uma as recordações foram brotando e, na minha imaginação, foram formando um colar de pedras preciosas, mais precisamente de pérolas, as minhas preferidas.

A maioria das jóias é feita usando-se metais e pedras preciosas, como o ouro, a prata e o diamante, dádivas brutas da mãe natureza, que precisam ser lapidadas, a partir da criação humana. Já as pérolas são jóias que, para mim, lembram o interior de um ser, as coisas do coração. Sempre me fascinaram, pois são confeccionadas a partir de uma matéria-prima diferente, encontrada dentro de uma criatura viva, a ostra.

Para entender melhor a analogia que faço, ressalto que as pérolas são o resultado de um processo biológico. É a maneira que a ostra encontra para se proteger de substâncias estranhas. E é curiosa a forma como a ostra se defende. Quando um parasita invade seu corpo, ela libera uma substância chamada madrepérola, que se cristaliza sobre esse elemento estranho, impedindo-o de se reproduzir. Após um período que dura, em média, três anos, esse material se solidifica, formando uma pérola. Sua forma depende do formato do invasor e sua cor varia de acordo com a saúde da ostra.

As ostras não são os únicos moluscos que produzem pérolas. Raramente mexilhões e amêijoas (espécies de mariscos) também podem gerá-las. A maioria das pérolas, no entanto, é produzida pelas ostras, tanto em ambientes de água doce quanto de água salgada.

Existem as pérolas naturais e as cultivadas. As naturais, por definição, são encontradas, por mergulhadores ao acaso, sem qualquer interferência humana em sua formação. São confeccionadas estritamente pela natureza. São muito raras e o trabalho de prospecção é tão difícil que, desde 1916, elas não são mais procuradas. Por isso alcançam altíssimo valor no mercado.

Para se ter uma idéia, há registros de que, no apogeu do império romano, quando a febre do uso de pérolas estava no auge, o general romano Vitellius financiou um exército militar vendendo apenas um dos brincos de sua mãe.

Atualmente, as pérolas estão mais acessíveis à comercialização. Quase todas são cultivadas. Em relação à sua aparência, em nada diferem das naturais, no que tange à beleza, textura e durabilidade. Porém, há a intervenção humana de injetar no interior das ostras parasitas invasores que deflagram o processo. Somente um especialista pode diferenciar uma pérola natural de uma cultivada, atestando, assim, o seu valor comercial.

Como a ostra que se fecha e solidifica o intruso, levando certo tempo para acontecer o aparecimento da pérola, também vivenciamos nossos processos internos que nos levam ao autoconhecimento. Nossos sonhos reais e nossas falsas expectativas são testadas por nossas experiências e confrontadas com a realidade para se solidificarem ou não na formação de nossa identidade. Conduzidos por nossa intuição, vamos dando forma aos nossos ideários por meio de muito trabalho e dedicação.

Sempre que nos conscientizamos de nossos sentimentos verdadeiros ou conseguimos nos unir com uma parte importante de nós mesmos, o futuro se afigura, diante de nós,com possibilidades infinitas. Porém é necessário que disponhamos de tempo, que façamos escolhas cuidadosas e que enfrentemos trabalho pesado para que as possibilidades se concretizem.

Assim como a pérola legítima - natural ou cultivada - é o resultado de uma fantástica criação da natureza, o ser humano também passa por lapidação até chegar à sua maturidade emocional e afetiva e alcançar a sabedoria. Tal qual ostras, que vão construindo a sua obra-prima, minhas recordações vão brotando em meu coração e vão solidificando minha existência, possibilitando que eu repense e avalie minhas atitudes e os acontecimentos nos quais me envolvi. Dessa forma, vou enfiando as contas, prazerosamente, uma a uma, em um resistente fio, formando o colar de minha vida que, com alegria e oferenda, coloco no colo daqueles que me lêem.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um drama musical em minha vida

Os amantes da boa música sabem que há gêneros imortais. Não morrem, simplesmente se transformam, para continuar mais atuais do que nunca, como é o caso da ópera. Em plena era do raggie, do hippie hop, do samba raggie, a ópera se transmuta, para provar que tudo o que é bom fica eternizado no imaginário daqueles que sabem a diferença entre música de consumo e melodias que transcendem a dimensão quotidiana do ser humano, para simplesmente ser.

Quando todos pensavam que a ópera era uma mera peça de museu, guardada nas reminiscências dos mais velhos, ela rejuvenesce, a partir de meados do século passado. Os mais eruditos contemporâneos enaltecem os principais compositores de ópera, dentre outros, John Adams, Tobias Picker, Jake Heggie, André Previn, Mark Adamo e Kaija Saariaho, que mantêm a produção operística continua, intensa, embora poucas delas consigam se firmar no repertório das casas de Ópera.

Mas quem é mais velho sabe de suas origens, como também empregar todo o seu poder da imaginação e de um entendimento da linguagem simbólica, que está por trás de um drama encenado através da música, para chegar a seus reais significados. As principais óperas conhecidas que adotam elementos típicos do teatro, tais como a cenografia, vestuário e interpretação, merecem a presença de uma orquestra sinfônica completa para lhes dar amparo.

E, para entendê-las é preciso, mais do que tudo, sensibilidade, senso de imaginação, desprendimento da realidade vivencial que massacra por seu quotidiano de rotinas e mesmices. Foi o que aprendi com meu tio Mario, um dos irmãos mais velhos de minha mãe.

Ele possuía uma bem organizada coleção de óperas em discos de vinil de 78 rotações guardados zelosamente em um armário de cedro que ocupava lugar de destaque na sala, como se ele quisesse passar o recado, a quem o visitava, de que móveis e objetos de decoração são menos significativos do que as ferramentas para se chegar à alma humana.

Meu tio Mário guardava, ao lado do armário, principal e oponente de sua sala de visitas, a eletrola, equipada com potentes amplificadores, para que ele pudesse, em seus momentos de lazer, sentado em sua poltrona predileta, se deliciar ao som de Rossini, Verdi, Ponchielli, Wagner, Bizet, Mozart, Vila Lobos e tantos outros.

E ele ficava, ali, absorto, por horas e horas, de olhos fechados, imaginando as histórias vividas pelos personagens de La Traviata, Carmen, Aída, Tristão e Izolda, A Flauta Mágica, O Barbeiro de Sevilha, La Gioconda, O Guarani, só para citar algumas de sua coleção.

Por muitas vezes, cheguei a imaginar seus momentos de divagação associados à memória que ele guardava de seu irmão Augusto, falecido aos 22 anos, no Rio de Janeiro, quando estudava na Academia Militar. Minha mãe contava que Augusto era barítono e sonhava um dia ser cantor de ópera. Sonho interrompido pelo estampido de um tiro... ( Bem, mas essa é outra história). Mas o certo é que ninguém conseguia saber por onde sua alma viajava, quando abria as portas de uma intensa e bem vivida experiência no interior de si mesmo.

O que todos nós, seus familiares presenciavam era, sim, seus momentos de êxtase. Ninguém se atrevia a chamar-lhe a atenção ou mesmo ousar a fazer qualquer ruído, enquanto se entregava aos ditames das músicas que lhe falavam direto ao coração. O melhor era respeitar o seu deleite.

Eu, quando criança ou adolescente, pouco entendia o significado daquelas letras, em sua maioria cantadas em italiano. Apenas quedava-me, em silêncio, deixando-me, também, impregnar pelas melodias. Elas falavam diretamente à alma, calavam bocas e espargiam sentimentos que iam, aos poucos, preenchendo todos os espaços da casa. Em minha singeleza infantil ou de adolescência, aprendi a educar o meu ouvido para o que não precisava de razões, mas sim sentimentos de empatia. Antes de educar a minha mente, aprendi a aquietar a minha alma, simplesmente esvaziando-me de tudo para me deixar impregnar pelos sons que saiam da casa de meu tio Mário.

Ele herdara essa sensibilidade e bom gosto pela música de seus pais. Minha mãe me contava que quando era criança, seus pais, irmãos e amigos costumavam se reunir, à noite, em casa, para tocar piano e cantar. Faziam os chamados saraus.Tais eventos musicais eram um hábito cultuado por famílias burguesas do início do século XX, que ainda não possuíam a televisão e seus sistemas alienantes, para viverem tão somente das manifestações culturais e artísticas que transcendiam o tempo e o espaço. Sem consumo, sem imediatismo, sem conteúdos levados a não pensar ou não questionar o sistema que molda o status quo vigente.

Assim, a ópera possuía um outro significado no processo de formação do ser humano, desde o seu surgimento, no século XVII, quando passou a ser apreciada, na Europa, principalmente pela burguesia e aristocracia. Amante dessa expressão artística, sempre achei que meu tio Mário era descendente direto dessas castas aristocráticas, dado seu ar e o seu olhar refinados, pois, em seu contato com as pessoas era extremamente atencioso, amoroso e educado. Um verdadeiro gentleman.

E era dessa forma que ele dava sua contribuição à minha formação. Sua erudição o levou a tornar-se uma pessoa sensível aos que se encontravam a sua volta e, por sua perspicácia, sempre sabia dar o conselho certo, a palavra apropriada, o afeto indispensável em qualquer momento em que eu precisasse de sua presença. Nunca o vi levantar a voz para quem quer que fosse mantendo sempre o seu autocontrole e o equilíbrio em situações de confronto. Impunha-se por sua altivez e coerência.

Não por acaso minha mãe era muito apegada a ele. Considerava-o um segundo pai. Quando eu nasci, meus pais convidaram-no, juntamente com sua esposa Aracy para serem meus padrinhos de batismo. E ele cumpria muito bem com seus votos. Todo o mês além de mostrar o boletim para meu pai, tinha de apresentar-lo a ele também para que aprovasse minhas notas escolares. (Ainda bem que eu não os decepcionava!).

Pena que esses velhos hábitos estão morrendo. As cidades coisificaram as relações. Famílias enormes são cada vez mais raras. O que dizer, então, da presença de padrinhos na vida de crianças e adolescentes? Talvez, se os padrinhos continuassem a ter o seu papel na formação dos mais novos, quem sabe teríamos adultos mais completos. Quem sabe esses ajudariam mais na educação e formação integral do ser humano, a partir de experiências afetivas mais completas, base para a constituição de indivíduos mais equilibrados e centrados em si mesmos.

Felizmente olho para o meu universo e constato que também tenho uma afilhada, a quem amo e me preocupo com seu futuro. Assim como fez um dia meu tio e padrinho Mário, cuja presença me foi privada, quando faleceu vítima de complicações com diabetes e pela tristeza provocada pelo falecimento de seu filho Milton. Meu consolo é saber que, quando hoje ouço uma ópera, o sinto, falando-me de coração a coração, e tanto ele quanto eu nos encontramos, longe do tempo e do espaço, onde a vida não tem forma, mas, simplesmente, emoção eternizada que guarda puras melodias e nos remete ao que há de mais eterno em nossa existência.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Herói ou mutante?

Este Blog foi criado para incentivar a reflexão sobre como relações familiares influenciam a formação dos indivíduos e, também, como indivíduos se unem para formar uma verdadeira família. As reflexões publicadas baseiam-se em minhas experiências, procurando levar cada leitor a promover as suas próprias análises, ampliando assim a compreensão da relação indivíduo x família.

Ao examinar a minha árvore genealógica constato a existência, em um de seus pilares, de um personagem que faz parte da historiografia brasileira, tanto visto como herói quanto controverso militar, que lutou na chamada Revolução Farroupilha. Refiro-me ao militar Bento Manoel Ribeiro, bisavô de minha avó materna.

Seus principais feitos estão ligados a um embate que envolveu, de um lado, um contingente de gaúchos, liderados por estancieiros e, de outro, as tropas imperiais, durante o decênio 1835-1845. Os rebeldes, pelo longo tempo de “peleja”, passaram a ser também chamados de farrapos, devido à sua precária indumentária, em razão dos desgastes por que passaram e por sua situação financeira progressivamente adversa. Por isso mesmo, o confronto também passou a ser conhecido como Guerra dos Farrapos.

Para o povo gaúcho, esse conflito bélico representa, hoje, a própria materialização de sua identidade, sendo, por isso mesmo, comemorado, anualmente, em cada 20 de setembro, como o dia do gaúcho. Nos anais dessa história farroupilha, inúmeros personagens foram considerados mitos, outros, no entanto, foram simplesmente vistos como figuras controversas, como é o caso de meu tetra avô.

O ser humano sempre deseja orgulhar-se de seus ascendentes, de ostentar, em suas origens, a figura mítica de um herói que passa à história por ser admirado, cortejado e reverenciado por seus feitos. Nesse sentido, a historiografia não deixa de considerar os grandes feitos de Bento Manoel Ribeiro, em toda a sua trajetória militar. Mas também considera, em seus anais, o fato de ele ter trocado de lado duas vezes, nas campanhas onde esteve envolvido, durante a Revolução Farroupilha.

Como sempre acontece, um exame sobre os feitos passados traz reflexos não só ao seu personagem principal, mas, também, envolve, indiretamente, a todos os seus descendentes. Parece que a análise histórica dos fatos pende muito mais para o lado de suas opções pessoais do que, propriamente, reconhece seus feitos em campos de batalha.

Prevalece mais a forma preconceituosa do que a coragem de reconhecer e elevar a quem comandou homens, enfrentou inúmeras vezes a morte de perto, foi um grande estrategista, surpreendeu seus inimigos, venceu-os em seus confrontos diretos, sem muita tecnologia, mas cara a cara, com bravura e destemor.

O ser humano gosta de impor rótulos, muito mais do que elevar figuras humanas. E, certamente, tais efeitos danosos também recaem sobre seus descendentes: “ah! Tu és parente do fulano?” exibindo um sorriso irônico na face. Já os parentes diretos, sob olhares suspeitos, tendem a examinar esses atores a partir de suas reais condições. Desde pequena sempre ouvi as pessoas mais velhas da família enaltecerem os feitos militares deste parente distante, desprezando toda a controvérsia que seu nome evoca.

Quem foi Bento Manoel Ribeiro? A historiografia o retrata como um homem incomum, que possuía um temperamento igualmente incomum. Nasceu em 1783, em Sorocaba, São Paulo, filho do tropeiro Manoel Ribeiro de Almeida. Pelo lado materno descendia do bandeirante Anhangüera e do português João Ramalho e, pela linha paterna, de Pedro Taques.

Com sete anos veio para o Rio Grande do Sul, como piá de uma estância, em Rio Pardo.

Em 1800, aos 18 anos, ingressou nas fileiras do Regimento Dragões do Rio Pardo como soldado raso. Sua carreira militar durou 54 anos, sendo ela encerrada no posto de Marechal do Exército Brasileiro.

Era descrito como um militar estrategista. Possuía um amplo conhecimento sobre os habitantes da chamada “campanha” (meio rural), instalados na Província do Rio Grande. Tinha muito prestígio no meio onde circulava e sua liderança levantava os ânimos e dava coragem aos combatentes. Quando a legalidade estava caída, ele, com sua presença, dava-lhe vida e, quando a causa da República precisava alento, ele lhe dava.

Prestou relevantes serviços militares à Integridade e soberania do Brasil, tanto como colônia quanto independente, desde um simples soldado até chegar a marechal do Exército Imperial. Lutou nas guerras do Sul, de 1801, 1811-12, 1816 e 1821, 1825-28 e 1851-52, onde se firmou entre as maiores espadas de seu tempo. Foi militar de raros méritos táticos, era profundo conhecedor do território onde combatia e detentor de grande capacidade de nele orientar-se.

Conseguiu, graças a seu carisma, liderar ações em combate e bem combinar Infantaria e Cavalaria, além de possuir conhecimento apreciável sobre a psicologia de seus homens e de seus adversários. Lutou pelo Rio Grande sem perder de vista a integridade do Brasil e também lutou pelo Brasil, enaltecendo o Rio Grande do Sul na conformação da nação brasileira.

Durante o tempo em que durou a Revolução Farroupilha, em função de seu temperamento singular, em defesa de seus interesses e por seguir as suas próprias regras, ao invés das dos governos que serviu, adotou posições até hoje controvertidas e aparentemente inexplicáveis.

Ao combater ora ao lado dos farrapos, ora ao lado dos imperiais, sempre desequilibrou, acentuadamente, o prato da balança, em favor da causa que defendia. Inicialmente como farrapo, depois como imperial, novamente como farrapo e, finalmente, depois de mais de dois anos de neutralidade, lutou pelo Império até o final da Revolução, "como vaqueano-mor de Caixas". Deu grande contribuição à conquista e à preservação dos objetivos do Brasil de unidade, integridade e soberania.

Morreu com 72 anos de idade, rico, mas sem livrar-se da fama controvertida. Sobre ele escreveu o veterano farrapo Ten. Caldeira: “foi indiscutivelmente a maior espada do Rio Grande do seu tempo e o maior especialista na Guerra de Coxilhas ou na Arte Militar dos Pampas”.

Hoje, como sua descendente, não fixo o meu olhar tão somente na controvérsia que a história deixa transparecer, mas exalto seu espírito guerreiro, que lutou com bravura e fidelidade em cada lado escolhido. O que importa é como se dedicou a perseguir aquilo que achava certo. Ainda mais dentro de um conflito que durou longos dez anos e que deixou exauridas as tropas, maltrapilhas, corroídas pelo sofrimento e, como qualquer outra guerra, chegou a resultados muito distantes dos ideais traçados ao seu início.

Ao cabo de tanto desgaste, já não há mais ligação entre os motivos que deflagraram o conflito e as razões para chegar ao fim de um verdadeiro flagelo, como neste caso, onde pereceram cerca de 3.500 heróis, em sua maioria aqueles que se insurgiram contra a cobrança desmedida de impostos, o desprezo pela autonomia regional e o desdém pela identidade de um povo. Guerra é sempre sinônimo de dor e sofrimento, nunca de lucidez e racionalismo. Por isso quem nunca a viveu não pode julgá-la segundo valores trazidos dos tempos de paz, de ordem e civilidade.

Há, em cada um de nós, a figura de um mutante, assim como a de um herói. O olhar sobre a história é sempre subjetivo e depende de quem se debruça sobre o seu objeto. .Fica em nós, seus descentes, a certeza de que o ser humano pode mudar muitas vezes o seu caminho sem perder, no entanto, sua integridade e seus valores existenciais.

Bento Manoel Ribeiro fez as suas opções em pleno campo de batalha. Hoje, sem comprometer suas vidas, suas fileiras, troca-se descompromissadamente de partidos e de ideologias sem que isso assuma quaisquer conotações controversas.




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domingo, 5 de setembro de 2010

Mosquito-pito

Quem sou não pode ser dissociado de quem fui. Tudo pertence a uma evolução. O passado deixa suas marcas através de seus ícones, que sintetizam comportamentos, expressões, sentimentos. Uma peça de teatro, uma tela de um artista visionário, uma música ou um filme despertam em nós recordações, avivam experiências, enaltecem marcas deixadas através do tempo. Mesmo passadas algumas décadas, o filme Mon Uncle (Meu Tio - 1958) ainda é motivo de discussões entre os amantes da arte cinematográfica. Para mim é uma fonte de emoções vividas naquela época.

Quem assistiu essa comédia de humor mordaz e inteligente de Jacques Tati sabe que ela retrata muito bem, entre outros aspectos, as relações familiares e o afeto entre o personagem principal, sr. Hulot e seu sobrinho Gérard. Os dois vivem uma série de peripécias que ridicularizam as relações em tempos derivados da tecnologia emergente. O tio conquista o sobrinho mostrando as coisas simples da vida.

Assim como na ficção, também na vida real a relação entre tios e sobrinhos deixa influências e sentimentos transmitidos que vão dar a cada nova geração as marcas que perduram em suas convivências individuais e sociais. Eu tenho as minhas recordações de infância e permito-me associá-las a esse filme visto quando criança. Foi assim que, na construção de meus afetos, tive a influência benfazeja de meu tio Zeca e seu jeito de encarar a vida através de seu lado jocoso.

“Mosquito pito do boni bonito” Era assim que meu tio cantava, chamando a minha irmã do meio. Dizia ele que era porque ela não parava quieta, estava sempre se movimentando, parecia um “mosquito elétrico”. Não sei de onde ele tirava esses trocadilhos, só sei que nos divertíamos ao ouvi-lo, por seu jeito simpático e afável de tratar suas sobrinhas.

Irmão mais velho de meu pai, era militar, mas certamente não tinha a sisudez dos homens das armas. Para nós, crianças era simplesmente o tio Zeca.

O que mais me chamava a atenção em meu tio era a sua perspicácia. Fazia piadas com as situações mais simples que aconteciam. E nos fazia morrer de rir. Ele cantava e fazia letras de música, retratando, de forma engraçada, as situações do momento. Foi esse mesmo jeito desprendido que o levou a também chamar minha irmã de “Pessoa”.

É que, por volta dos seis anos de idade, ela escrevera uma carta a nossos tios e primos, que moravam em outra cidade, relatando uma situação vivenciada. Na carta, usara a palavra “pessoa” uma infinidade de vezes. Foi o que bastou para ele começar a chamá-la por esse novo nome. Mas ela não se incomodava com isso. A impressão que eu tinha era de que ela até gostava de estar em evidência, o que, de certa forma, me dava uma pontinha de inveja. Talvez isso, mais tarde, tenha nos ajudado a cuidar da redação, não repetindo as palavras, procurando sempre expandir o vocabulário. Foi despertando em nós um sentido mais respeitoso para o uso da língua portuguesa.

Através desse lado despretencioso também aprendemos a ser afetivamente consideradas por esse meu tio que ousava brincar com as palavras. Construímos uma relação inquebrantável, parte de uma herança familiar que, antes de tudo, envolve a definição de sentimentos (de segurança ou de insegurança, de dúvida ou de confiança em si, de indignidade ou de orgulho, de modéstia ou de arrogância, de privação ou de domínio). Ele contribuiu para dosar essa dicotomia.

Quando nos visitava, costumava passear, à tarde, na Rua da Praia, a Rua dos Andradas, a mais movimentada e famosa da capital gaúcha. Ao sair de casa ele anunciava: “Eu vou ao povo!”. E lá ia ele, todo sorridente, pegar o bonde. À noite, antes de dormir, costumava ir até o quarto para dar-nos a bênção. Ficava parado na soleira da porta e fazia o gesto característico, com o braço levantado, apontando os dedos anular e indicador para cima. Minhas irmãs e eu cobríamos a cabeça com o lençol fingindo que já estávamos dormindo. E ríamos baixinho, sentindo-nos seguras. Assim ficava o vestígio da presença divina no silêncio da noite.

Meu tio morava com sua família numa pequena cidade, localizada na divisa entre os estados de Santa Catarina e Paraná. E, já na adolescência, quando chegavam as férias, eu mal podia esperar para visitá-los e aproveitar a oportunidade para estreitar ainda mais os laços familiares. Lá, freqüentava, com minha prima, os animados bailes promovidos pelo clube da cidade, e o cinema cujo gerente era o irmão de minha tia. Assim podíamos assistir a todos os filmes de sucesso que eram exibidos. E mais de uma vez. Acho que foi daí que comecei a apreciar com mais atenção a sétima arte.

Um pouco menos que irmãos, mas muito mais que amigos: os primos. E com eles, os tios, os avós. Todos juntos formam nossa "grande" família”, na qual nos encontramos inseridos e com a qual compartilhamos histórias comuns, formando as tradições e a cultura familiar especial. E, neste contexto, tio Zeca representa, assim como no filme Mon Uncle, tudo o que se pode colocar em evidência nas relações entre tios e sobrinhos, a partir da construção de uma vida simples e afetiva compartilhada.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Eu, pintora?







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Por que você não pinta?, perguntou-me, certa vez, uma amiga.
"Você sabe combinar as cores ao se vestir."

Vacilei, com suas palavras, mas fiquei intrigada. Nunca havia sequer imaginado que poderia me atrever a dar uns rabiscos no papel. Até que um dia me animei. Inscrevi-me em um curso de pintura em tela e pensei: “Vamos em frente! Vamos ver no que vai dar”.

Ao começar o curso, constatei que a pintura é um processo aberto. Como escrever. Você olha a tela em branco, assim como encara a folha de papel ou a tela aberta do computador. Ela está ali. Na tua frente, exortando um olhar diferente.

Uma infinidade de cores em tintas e alguns pinceis acompanham a tela em branco. Tudo é surpresa. E você não sabe o que vai acontecer. São infinitas possibilidades. Só falta aquele ato de coragem de dar os primeiros traços. E, quando ele sai, tudo é criação.

A criação é um processo de autoconhecimento. Você vai descerrando os véus e descobrindo o mundo a sua volta. É o aprendizado de educar o olhar. Com as primeiras impressões, sobre a tela, passei a me surpreender observando mais atentamente o céu, as suas nuances, os tons de azul, o formato das nuvens, e, também, os inúmeros tons de verde, luz e sombra das árvores por onde passo... Observo as cores na plumagem dos pássaros. De repente, descubro, dentro de mim, sentimentos e sensações que dantes estavam bem escondidos, intocáveis.

Quantos já passaram por essa experiência? Penso nos pintores com a boca e com os pés. Sua criatividade é fruto da superação de todos os obstáculos, até chegar a produzir uma obra reconhecida, completa, concreta, entre o imaginar e o realizar. Como dizia o grande Picasso: “A inspiração existe, porém temos que encontrá-la trabalhando”.

Essa é uma regra geral: quantos tiveram que superar os mais variados desafios para tornarem-se consagrados, admirados e reconhecidos. Muitas deles, em vida, não chegaram a conhecer a fama, como foi o caso, entre outros, de Van Gogh (1853-1890), incompreendido em seu tempo, desajustado, maldito por seus contemporâneos. Só depois de morto, foi aclamado para a posteridade.

Também Cézanne (1939-1906) que, na escola, tirava notas altas, em todas as matérias, menos em desenho e, quando tentou entrar na escola de Belas Artes, por duas vezes, foi reprovado. Os críticos da época zombavam de sua arte.

Paul Gauguin (1848-1903) foi outro que, inicialmente, pintava por hobby e, ao perder seu bom emprego, resolveu ganhar dinheiro com sua pintura. Não conseguiu. Morreu pobre e doente.

Em todos eles, há a vontade de superação de seus próprios limites, há o enfrentamento de todas as vicissitudes da vida para realização de seus sonhos. E, no meio do caminho, quantos deles chegaram a pensar em desistir, abandonar todos os seus sonhos, fugir de suas obras, deixar suas tintas e pinceis repousando, com medo de serem reprovados por seus públicos ou críticos? Quanto lhes custou perseverar, quebrar barreiras, vencer a timidez, o medo, a reprovação? - “O que os outros vão dizer?”- Mas seguiram em frente, com coragem...

E o que dizer daqueles que elevaram seus egos para além de suas críticas, como Salvador Dali (1904/1989), que dizia que as duas coisas mais felizes que podem acontecer a um pintor é ser espanhol (como ele) e se chamar Dalí”...Ou Picasso ( 1881/1973) que amou as mulheres com a mesma intensidade com que produziu a sua obra...

Quanto a mim, ainda não sei de minhas pretensões. Basta-me ir descobrindo, aos poucos, o caminho por onde as tintas me levam... e ter consciência de que o ato de pintar abre uma nova visão da vida através de um olhar renovado, para entender as cores que Deus colocou em seu quadro, tão concreto, tão abstrato de sua Obra. Sigo pelos caminhos do aprendizado, ainda engatinhando, despreocupada em ser uma pintora consagrada, mas disposta a descobrir novos véus.

Afinal, isso vale para todos os que recebem elogios. Não para enaltecer seus egos, mas, quem sabe, para chamar atenção sobre suas inquietudes. Como um verdadeiro empurrão, para despertar coragens, abrir universos e levar a novos tons, bastando apenas redirecionar antigos olhares para dar vida a telas brancas de pintura, folhas em branco ou telas de computador.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Receitas da vovó

“ Vive dentro de mim a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola. Quitute bem feito .
Panela de barro.Taipa de linha.
Cozinha antiga, toda pretinha
.”

Quando leio os poemas de Cora Coralina lembro-me de minha avó Raquel. Ela era exímia cozinheira. Quituteira de mão cheia. Fazia doces e pães maravilhosos. Achei nas coisas de minha mãe, amarelado pelo tempo, um caderno de receitas escritas por minha avó, com uma caligrafia fina e caprichada: bolinhos delicados, bolo de nozes, pudim de laranja, queijadinhas, merengues em calda, bacalhau com leite, empadinhas, entre outras delícias. São receitas provadas e aprovadas por aqueles que tiveram o privilégio de saboreá-las. Guardei como uma relíquia. Ainda não fiz nenhuma das receitas. Não me senti à altura. Mas o caderno está lá, em lugar de destaque. Um dia me encorajo...

Minha avó materna morreu aos 89 anos. Era uma mulher alta, gorda e tinha um sorriso aberto, muito bonito. Pele bem clara, cabelos lisos e expressivos olhos castanhos. Casou muito jovem, com 17 anos; teve nove filhos, trinta netos e já perdi a conta de quantos bisnetos e tataranetos. Ficou viúva aos quarenta e poucos anos e, sua vida, até então sem grandes preocupações financeiras, sofreu uma reviravolta. A responsabilidade da família ficou por conta do seu filho Mário que assumiu a educação dos irmãos mais novos e a direção da casa. Para manter e ajudar o filho nas despesas, minha avó fazia doces, pães e bolos para vender. O sucesso era certo e a clientela só aumentava. Aos poucos, meu tio foi-se fortalecendo financeiramente e vó Raquel passou a exibir seus dons de quituteira somente para os mais chegados.

O ponto alto era a comemoração de seu aniversário, dia 24 de junho, dia de São João. À noite, a família toda – filhos, netos e demais parentes - reunia-se para reverenciar a data. Uma enorme fogueira era montada e acesa na rua, em frente à casa. Deliciávamo-nos com os quitutes típicos - a maioria preparados por ela - e com as brincadeiras junto à fogueira. Meus primos mais velhos vestiam-se com trajes caipiras, colocavam uma barriga postiça, pintavam bigodes e cavanhaques e faziam um monte de palhaçadas para a criançada.

Uma vez ao ano, junto com minha tia, vó Raquel passava uma temporada no Rio de Janeiro, visitando os dois filhos que lá moravam. Gostavam de viajar de navio. Quando chegavam, íamos buscá-las no cais do Porto e era aquela festa com os presentes que traziam. Uma vez, ela trouxe para mim e para a minha irmã duas bonecas de louça. As bonecas, últimas novidades em matéria de brinquedos, nos encantaram, com seus cabelos cacheados, vestidos de organdi, sapatos e bolsas. De tanto pentearmos os cabelos das bonecas, logo, coitadas, ficaram carecas.

Já mais idosa, não se dedicava mais à cozinha. Mas quando a visitávamos, íamos direto para o seu quarto, onde escondia, especialmente para nós, balas e biscoitos delicadamente acomodados em latas coloridas, os quais saboreávamos jogando conversa fora.

Minha avó nunca teve doença grave. Tinha boa saúde. Nos últimos anos é que as pernas já não tinham a mesma energia, andava com dificuldade. Da minha festa de 15 anos ela não pode participar e nem preparar os quitutes. Mas a festa contou indiretamente com sua presença, pois minha mãe se encarregou de preparar com todo o esmero as suas receitas de doces e salgados. No dia seguinte, meu pai foi buscá-la de carro para almoçar conosco. Minha mãe fez com que eu vestisse o vestido da festa, chamou o fotógrafo e minha vó e eu tiramos uma foto para lembrança.

Hoje em dia quando estou na cozinha, preparando o alimento para minha família, reinventando sabores e cores, sentindo o cheiro se espalhar pela casa, penso em minha avó quituteira. Ainda sinto em minha boca o gosto dos papos de anjo, dos quindins, das rapadurinhas de leite, dos pães quentinhos, dos bem-casados, misturados com o seu carinho...

Um pouco de melancolia teima em ficar no ar, quando penso que esses prazeres se perderam no tempo com o corre-corre da vida moderna, que leva as pessoas aos supermercados, aos fast foods, aos self services. No entanto ainda prefiro manter os hábitos culinários que minha avó me inspirou, ao tempo em que preparar uma saborosa receita pertence ao mesmo ritual de quem faz poesia, sem pressa, sem se deixar dominar pelas horas, usando os mesmos ingredientes para agradar não só estômagos, mas para encher a alma de gestos completos de mulheres que experimentam a vida em todos os seus sabores, assim como fazia a minha avó.

domingo, 8 de agosto de 2010

De fantasmas e de fantasias

Era uma noite quente de verão. Todos dormiam em casa procurando usufruir ao máximo a leve brisa que entrava pelas janelas. Dormíamos as três meninas no mesmo quarto, cada uma em sua cama, bem confortáveis e seguras. De repente ouviu-se um grito na madrugada: “Tem uma mulher mexendo no guarda-roupa da vó”.

A família inteira acordou assustada, pois a avó tinha viajado e, logicamente, não estava no quarto. Meu pai levantou-se apreensivo, calçou as chinelas, e correu para o quarto em questão. Não encontrando ninguém, dali desceu as escadas e, acendendo as luzes, fez a vistoria na casa inteira. Olhou a rua, tudo tranqüilo. Nada que indicasse arrombamento ou algo parecido. A vizinhança estava toda em silêncio. Nenhum cachorro latia.

Minha mãe, ainda sonolenta, tentava consolar as três filhas que, de olhos arregalados, temiam voltar para suas camas. “Não há ninguém aqui, minha filha”, dizia meu pai com seu sorriso amoroso. “Eu vi, sim, pai”, afirmava minha irmã mais nova, com a experiência de seus três anos de idade. Ela havia levantado para ir ao banheiro e, ao passar em frente à porta do quarto da avó, enxergou a tal mulher, a qual descrevia com detalhes. As crianças menores possuem uma sensibilidade espiritual muito grande e existem relatos que comprovam esta afirmação. Mas meus pais não pensavam nisso naquele momento. Queriam acalmar as filhas e voltar a dormir, uma vez que, vistoriada a casa, nada havia sido encontrado. Mas a rebordosa já estava armada.

Manifestando nossa sensibilidade infantil, não nos conformávamos com as explicações de ordem material dada por nossos pais e ficamos intrigadas, abrindo a possibilidade de que algo mais realmente poderia existir ali. Ainda permanecemos um bom tempo exigindo a atenção dos pais, até que, finalmente, o cansaço foi mais forte e voltamos a dormir. No outro dia, tudo voltou ao normal.

Anos depois, me deparo com relatos semelhantes de meus filhos que afirmavam, com esta mesma idade, ver vultos subindo as escadas de nossa casa ou perto de suas camas.

Encarei esses fatos com naturalidade. Segundo psicólogos as crianças com menos de sete anos não vêem nada de anormal nessas experiências e eu também.

Alguns pais costumam intimidar ou inibir esses relatos. Em conseqüência, muitos problemas interiores podem surgir. É assim que a criança passa a acreditar que nem tudo é possível, colocando um freio em todas as suas possibilidades.

Já outros pais, com mentes mais abertas, não descartam esses fenômenos e, portanto, não chegam a influenciar negativamente seus filhos em relação às questões tratadas como imaginárias.

Para essas crianças tudo é possível. Tudo faz parte de sua realidade. Em tenra idade, ainda não houve tempo de serem influenciadas pelos adultos, não foram condicionadas sobre o que é ou não é real. Foi-lhes permitido serem elas mesmas, estarem abertas a novas experiências. E, em sua caminhada pela vida, com certeza tornam-se, mais tarde, pessoas criativas e prontas para enfrentarem, com confiança e sabedoria, tudo aquilo que se esconde sob os véus do indecifrável ou se encontre em âmbito do seu inconsciente.